respeitosamente,
graziano.
/>
léo também no pré-clímax.
meu primeiro post nessa nova faze será um resumo em poucas palavras sobre a breve história da nossa cinematografia, dos principais trabalhos, desde junho de 2007, quando nos juntamos, até maio de 2009. quase dois anos. vamos lá:
CINEMA, OVOS E CERVEJA - gravamos com uma SONY PDX10. modelo inferior à, talvez, câmera mini-dv mais usada na história, a SONY PD170. essa limitada prosumer foi nosso debute no vídeo. a metodista, na época, tinha a rodo. o fotógrafo era o bruno dias. ele pediu pra ser. o bruno dias não sabia nem o que era um fresnel e muito menos bater o branco. everton oliveira, que já fazia casamento, era o único que saberia a diferença entre rec e play. ele operou a câmera quase todo o curta. quase, porque teve que sair mais cedo um dia para segurar pau de fogo em casamento. tínhamos três fresnéis de 1000w, tecrons, gelatinas e não sabíamos usar. após testes fracassados, acabamos quase não usando luz artificial. tínhamos cenas à noite - resultado - subexposição grotesca. tudo perdido? não. por incrível que pareça, o curta foi muito bem enquadrado. plano e contra plano, plano master, planos fechados. eu montei. não tive problemas. falando com jorge furtado, no dia da premiação, ele elogiou muito o curta, sobretudo o roteiro. e, para nossa surpresa, disse que adorou uma pan logo no início do vídeo. a pan foi feita por everton oliveira. furtado foi profético.
ERA UMA QUINTA-FEIRA - prestigiados pelo prêmio do "sonho do ovo", pegamos pela primeira vez a PANASONIC HVX200, recém-chegada na metodista. ela não saia do campus. não tinha seguro. gravamos dentro do campus e o fotógrafo foi cleber isler. cleber não era da controle, mas era nosso amigo, trabalhava no estúdio e sabia operar a câmera. ele o fez. não tínhamos workflow pra captar em HD, captamos em mini-dv. zé augusto, nosso mentor em cinematografia, sugeriu que gravássemos em 24PA e em 16:9. natural. também queríamos assim. no dia, calhou o cocô. cleber vacilou, ninguém sabia lhe orientar direito - resultado - gravamos em 4:3 cropado e em 30fps. uma lástima. o curta não exigia uma cinematografia elaborada. não tinha movimentos de câmera, só algumas (várias) trocas de enquadramento. fizemos algo muito interessante, de começar o curta em plongee e ir gradativamente descendo a câmera até acabar num contra-plongee no limite do chão. a exposição também foi feita direito. fui o editor, tive muitos problemas.
EU ESTOU AQUI - podiamos esperar alguns meses e captar com a HVX200. não esperamos. captamos com a SONY PD170. chamamos vebis jr. pra fotografar. vebis é fotógrafo de vídeo, trabalhava no estúdio da metodista e era nosso amigo. pela primeira vez, como diretor (junto com mais três), senti um fotógrafo que opinava no set. foi ótimo. vebis sugeriu bastante coisa nas três diárias que fizemos. usamos a glidecam dele - uma steadcam de pobre. tínhamos também rebatedores, uma grande angular, tecrons, gelatinas. tínhamos cenas internas, externas, planos fixos, flutuantes, bem fechados, bem abertos. gravamos no centro da cidade, num arranha-céu, num boteco, num corredor de prédio, num apartamento. pela primeira vez fizemos cinema de verdade, mesmo em vídeo. e a fotografia, com todas as limitações de uma PD170, foi elogiada por onde passou. pontos negativos? alguns planos muito caretas, típicos de estudantes de cinema.
DIÁRIA.MENTE - rodamos com uma HVX200 + P+S technic + jogo de 6 lentes fixas nikon (18, 25, 35, 50, 85, 135). gravamos em 720 24PN pela primeira vez usamos um adaptador de lentes 35mm numa câmera de alta definição. a primeira de várias. o resultado foi apaixonante. workflow de cinema, com trocas de lentes, folow focos, pouca profundidade de campo, textura de filme. everton oliveira e cleber isler foram os fotógrafos - o início de uma parceria que dura até hoje. os dois alternaram a operação de câmera e a iluminação. como orientadores, tínhamos zé augusto de blasiis e wilson bonifácio. o primeiro, dispensa comentários, o segundo, professor de fotografia, nos ensinou muita coisa. a maior delas - trabalhar com poucos recursos - B.O.N.I - baixo orçamento não importa. ivan moura foi nosso iluminador de heliporto. o fez com toda experiencia que possuia. o fez com louvor. não tínhamos orçamento para grua, expriminos do dolly o máximo que pudemos, seja no escritório, no chão, seja no heliporto, no praticável, sugerindo uma grua de pobre. a cinematografia do clipe é, até hoje, o ponto em que mais recebemos elogios externos. ela cresce os olhos, sobretudo por ter sido feita num 5º semestre de um curso universitário. recentemente, um reitor afirmou, orgulhoso, que "diária.mente" é o melhor trabalho audiovisual já feito na história da metodista.
O GRINGO - captamos com uma HVX200 + brevis35 + jogo de 6 lentes nikon (não lembro quais, mas semelhantes à diária.mente). gravamos em 1080 24P. saímos do ótimo P+S technic para o inferior brevis. motivo? dinheiro. o primeiro era quase o dobro do preço da locação. a dupla de fotografia foi, novamente, everton oliveira e cleber isler. já levemente calejados do workflow que tínhamos, foi um trabalho relativamente simples. e a química rolou muito bem entre todos. tínhamos um sol de rachar, a belíssima orla de santos como locação e uma novidade - filtros. testamos vários e conseguimos um resultado muito interessante, sobretudo com o sunset, na performance. além de ajudar a quebrar a grande quantidade de luz divina que tínhamos, os filtros deixaram o look do clipe bastante autêntico. nada óbvio, nada vídeo. fizemos, sem humildade alguma (falo por mim), um belo trabalho de cinematografia nesse clipe - trocas de foco diversas, movimentos de câmera com dolly, tripé e carro, enquadramentos de performance não óbvios. pontos negativos? claro. deixamos a fotografia do interior do cinema subexposta, talvez dois stops. conseqüência? um preto ligeiramente lavado e falta de detalhes. além disso, algumas trocas de foco não foram pontuais, deixando alguns momentos cruciais com foco doce. na edição, que afirmo, com convicção, foi a mais tesão que eu já fiz, o jeito foi brincar com o desfoque.
COLORIR - repetimos a HVX200 + brevis35 + jogo de 6 lentes nikon. gravamos em 1080 24P. a dupla de fotógrafos, novamente, foi everton oliveira e cleber isler, ainda mais entrosada. usamos, pela primeira vez, uma grua. ela tinha cabeça remota, braço de 6m (se não me engano) e quem operou foi o pateta, da bureau, figuraça. usamos também um dolly mais profissa e 6m de trilhos. repetimos a dose de filtros, afim de fugir o máximo possível do vídeo e chegar o mais perto possível do cinema digital. exageramos, locamos uns 20 filtros. usamos uns 5, no máximo, mas a possibilidade de testar na hora foi crucial. os fotógrafos sugeriram bater o branco fora do branco, afim de conseguir ainda mais uma foto singular. nos takes de grua não pudemos usar o brevis, por motivos de peso e equilíbrio da grua. é notável, pelo menos pra mim, a inferioridade do look nos momentos de grua. porém, os movimentos de grua estão, no geral, bons. existe uma trepidação considerável no 180º por causa do vento. uma pena. já a parte da ficção está linda. ela toda. nas internas que tivemos, optamos por usar um filtro low-contrast. exageramos na dose. ficou doce demais, tive que corrigir forte na CC. tivemos um problema também com o despolido, que invadiu o quadro em alguns takes, e no motor do brevis, que algumas horas deixou a imagem texturizada. um pouco frustrante, mas depois passou. e ninguém, quase, repara nisso.
OBS: mesmo adorando o look que os adaptadores 35mm dão, hoje não tenho mais tanta fascinação por eles. além de tirar nitidez, deixam, em alguns casos, a imagem doce demais, necessitando de muita CC. ainda valem a pena, claro, mas quando se tem orçamento. estamos, no momento, gamados pela CANON MARK2. em breve devemos estreá-la.
respeitosamente,
graziano.

Nunca tinha ido na mostra. E por causa disso sempre fui execrado. Como imaginava, o evento é carregado de posers e chatões, que se acham melhores que os outros só porque vêem filmes alternativos. (Um exemplo forte, foi um cara que se recusou a ir uma poltrona para o lado para que um casal se sentasse junto, sendo que ele não se prejudicaria em nada - e pra variar, ele tava falando de Bergman com a mulher - o típico paulistano babaca metido a besta mauricinho criado a leite com pêra). Mas, enfim, claro que a mostra é um sucesso não pelo seu tipo de público, mas sim pelos filmes que exibe. Sexta-feira fui conferir dois - seguem as resenhas:
Hoje fui ver “Ensaio Sobre a Cegueira”. Bem descrente, diga-se de passagem. A recepção fria em Cannes e algumas críticas gringas negativas acabaram me influenciando e me convencendo, antes mesmo de ver o filme, de que Meirelles tinha errado o ponto e que o filme não passava de uma ambição barata de um cineasta querendo se auto-promover grande.
Falam muita merda na imprensa. Tanto lá fora quanto aqui. Desta vez não foi diferente. O filme de Meirelles é excepcional. É um vigoroso retrato apocalíptico, com requintes de um diretor detalhista e convicto, e que demonstra cada vez mais fazer não um cinema de autor fechado, mas com pequenas características próprias, que as carrega a cada filme. Tinha gente que falava; “Há, se o Saramago gostou, e muito, é impossível o filme ser ruim!”. Dito e feito. Quem somos nós, críticos babacas e blogueiros punheteiros, pra falar que o filme não é denso, que a carga dramática do livro não foi bem adaptada, que o roteiro tem furos, e o “caralho à quatro”, se o autor da obra “pagou um pau” pra fita. Achar que ele deveria ter tomado outros rumos da trama é normal. Assim como é discutível a narração em off feita pelo personagem de Danny Glover (que nas versões antigas de corte, segundo Meirelles, mergulhavam o tempo todo na história) e também sua relação íntima repentina com a personagem de Alice Braga, um tanto brusca, e também a entrega do diretor ao esquema de estúdio/público, amenizando a brutalidade da cena de estupro coletivo (que ainda assim, ficou bem tensa) para impedir que velhinhas fizessem passeatas na rua contra seu filme. Enfim, tudo é escolha. E Meirelles tem tino pra elas. Prefiro ficar com as dele.
Me deixa contente ver o cinema nacional, mesmo que como co-produtor, acertando a mão em filmes grandiosos, sobretudo de gênero. Destaque também para a ótima fotografia – e não digo na estética do filme, como alguns pedantes elogiam: “há, adorei a fotografia, estilosa e tal”. Aquele esbranquiçado e dessaturado, por vezes puxado pro cyano, é pós-produção pura. A questão da foto em destaque aqui é que em muitos takes, usaram-se duas câmeras – marca já registrada de Meirelles – e muito bem usadas, por sinal – Charlone é mestre. Sem falar no DESLUMBRANTE trabalho cênico que fizeram com São Paulo, deixando lugares chaves da cidade, como o Anhangabaú e o Minhocão, irreconhecíveis e impecavelmente inseridos no clima da história. É de arrepiar algumas das seqüências em que vemos a cidade deserta e carregada de lixo, e podemos esperar (tomara) um dos making-ofs mais valiosos dos últimos anos.
Semana passada fui ver “Linha de Passe”, do Walter Salles. Ele, que junto com Meireles formam a dupla de novos cineastas brasileiros mais conhecidos e prestigiados do mundo, também acertou bonito na nova fita. Muito mais simplista e humilhe que “Ensaio”, o filme de Salles é um sensível e competente retrato de uma família trivial paulistana. Eu tenho bastante implicância com diretores de família rica, que crescem fora do país e voltam pra cá querendo pagar de filantrópicos com uma câmera na mão, abordando temáticas sobre pobreza e miséria, sendo que eles nunca sequer sentiram na pele esta condição. Não é o caso de Salles. Assim como “Central do Brasil”, pouco importa explorar de fato a condição social dos personagens. Ela é apenas o pano de fundo para histórias altamente humanas e críveis, ora comoventes, ora divertidas, transformando o filme em uma cativante trama universal. Walter Salles é dos cineastas brasileiros, o que mais se enquadra com o recente cinema argentino. E isso é um baita elogio.
Já os parênteses do título, vêem para estragar uma semana e tanto para nossa cinematografia, em função da indicação de “Última Parada 174” para representar o Brasil no Oscar. Vi este filme em cabine, à cerca de seis meses, num corte inicial de 140 minutos e sem ter sua pós-produção de imagem e som concluída. Minha impressão foi sucinta: tem grandes chances de ser um dos mais equivocados títulos da retomada, devido à total falta de respeito e convicção que senti na mão de Bruno Barreto na direção. Na época escrevi um texto, bem revoltado por sinal, sobre a fita (http://controle--remoto.blogspot.com/2007/12/174-primeira-verso-bra-2007-140-min.html). É certo que eles mudaram muita coisa daquela versão, e pelo jeito ele vem agradando parte da cúpula do audiovisual. Na sessão teste em que fui, metade do público adorou, aplaudiu e tal, um quarto desdenhou e o outro quarto, onde me enquadrei, quase vomitou quando chegaram os créditos, graças a mediocridade do roteiro, esquemático e de mau gosto, à algumas atuações fraquíssimas, à fotografia indecisa, à trilha sonora inoportuna e à outros aspectos, que acredito, somados, impossibilitava ao filme de se salvar numa nova edição.
Não gosto do estilo que a família Barreto faz cinema. Nos últimos anos, eles foram responsáveis por alguns dos piores títulos lançados por aqui, e ainda por cima, não conseguiram os sucessos de bilheteria que tanto almejam. Eu torço muito pro cinema de gênero nacional, com comédias românticas, terror, suspense, policial, romances e etc. invadindo as telonas do país e arrebatando o público com histórias onde elas se identifiquem se divirtam, se emocionem, sintam medo, sei lá, mas que seja filmado por aqui. Torço pro cinema brasileiro um dia se tornar popular, mas não as películas baratas que a família Barreto vem nos proporcionando.
Cotação dos filmes citados:
Ensaio Sobre a Cegueira - ****
Linha de Passe - ****
Última Parada 174 (primeira versão) - #
Respeitosamente,
Graziano.

O nome escolhido para a direção de um projeto tão audacioso foi o de Fernando Meirelles. O diretor tem uma obra ainda pequena, mas já é um dos mais conceituados nomes do novo cinema; sua narrativa ágil e de apuro estético é herdada da publicidade, e impressionou o mundo em "Cidade de Deus", que consta em quase qualquer lista dos melhores filmes da história do cinema mundial. Meirelles sabia que seu trabalho não seria fácil; e não foi. Em um blog (blogdeblindness.blogspot.com), o diretor contava detalhes e inquietações dos bastidores. Após muitos cortes, o diretor concluiu o filme. Ao exibi-lo nos chamados "screening tests", boa parte da platéia deixava a sala antes do término da película, chocados com a extrema violência e degradação humana. Meirelles achou melhor suavizar o conteúdo.
A direção de Meirelles não poderia ser mais precisa. Ele evita julgamentos morais; apenas mostra fatos e circunstâncias. O espectador tem a tarefa de julgar ou não o que vê na tela. Os atos praticados pelos cegos são justificáveis? Tal degradação realmente ocorreria? Há espaço para muita reflexão, mas o filme não perde tempo com isso, e segue sempre em frente, numa narrativa que nunca cansa o seu público. A atuação de Julianne Moore apenas confirma o talento da atriz, e dá êxito ao filme, já que boa parte da trama se apoia em seu personagem, que se torna a visão do espectador. Nesse quesito, mais uma vez o filme se destaca. A fotografia de César Charlone beira a genialidade. É esteticamente bela e extremamente bem resolvida narrativamente, trazendo um conceito inovador que consegue mergulhar o público dentro do estado mental dos personagens. O uso do branco estourado dá um impacto muito grande na vista, chegando a passar a sensação de cegueira.
Sexta-feira passada (22/08) o famoso diretor alemão Wim Wenders participou da sabatina organizada pela Folha de São Paulo no teatro do MASP. O evento contou com a participação de Walter Salles támbem. A Controle-Remoto esteve presente e aqui vai um resumo das perguntas feitas ao diretor.
-Sendo um dos grandes diretores do espaço urbano, e tendo vindo 4 vezes ao Brasil, o que te inspira no Brasil ? E o que distingue a paisagem brasileira da americana ?
Wim Wenders – Minha historia no Brasil começa quando eu era apenas um garoto, pela admiração que eu sempre tive com Oscar Niemayer, que construiu uma cidade no meio de uma floresta, então eu comecei a pesquisar sobre o país e eu adorei. Se eu tivesse que contar uma historia no Brasil, seria certamente em Brasília, mas para fazer a historia eu teria que ficar um tempo no lugar, até que a cidade me contasse a historia que eu gostaria de passar sobre ela. Eu preciso ouvir a cidade e ela tem que me dizer a historia.
E sobre Estados Unidos o que eu posso falar é que a paisagem do país é inteiramente recriada na minha cabeça pelas imagens que eu tenho dos velhos filmes Western já filmados, e o Brasil é como um quadro em branco, eu posso criar minha concepção. Em Paris, Texas, o mais difícil foi filmar o oeste americano sem repetir as imagens que John Ford criou.
A única imagem que eu tenho do Brasil vem de Antonio das Mortes, Terra em Transe, e eu realmente gostava porque era uma nova paisagem, de Glauber Rocha.
Os dois diretores que eu mais aprendi sobre foram Anthonny Mann e Ozu, na qual eu vi coisas profundas, transparentes e transcendentes, mais do que qualquer outra coisa que já tinha visto, os filmes de Ozu tinham um nível espiritual para o cinema que eu jamais havia visto antes.
Quando eu era garoto, pobre e morava num quarto gelado, eu descobri que ir ao cinema era uma coisa barata porque eu poderia me esconder nos banheiros e poderia ver 5 filmes pelo preço de um único. E após as sessões eu teria que escrever sobre os filmes para poder lembrar de todos eles no final do dia, e foi aí que eu aprendi como fazer filmes.
-O que faz os road movies especiais ?
Wim Wenders – É a liberdade que todos nós temos em mente. Quando eu comecei a fazer filmes, eu percebi que você pode fazer filmes em estúdio, locações ou na estrada. Mas filmar na estrada é uma experiência que me faz gostar mais de fazer filmes.
A maioria dos filmes são filmados de uma maneira insana porque não são filmados em uma ordem cronológica, mas os road movies tem essa liberdade de se filmar durante uma viagem realmente, de uma maneira cronológica e isso nos faz viver o filme do jeito que deveria ser.
Walter Salles – Na medida que você se desloca na estrada você entende o ponto de partida, acaba lidando com descobertas e transformações. Descobre que é mais interessante o que esta na margem da estrada. Ele se choca com a idéia de que o outro esta a ali e não é perigoso. O road movie tem um contorno político novo.
Win Wenders – Sim, você acaba se tornando mais aberto. O filme é como um gesto sobre o mundo ou alguém.
-Você nasceu em Dusseldorf, terra do famoso filme de Fritz Lang, mas no seu caso você é um anti-Fritz Lang. Para ele os planos são engrenagens implacáveis, e os seus filmes se abrem para o improviso e o acaso. Quanto no seu filme há de improviso e quanto de improvisação ? E você sente que Lang é como um pai para a cinematografia na Alemanha ?
Wim Wenders – Nosso cinema não tem nenhum pai, os nazistas fizeram filmes durante 15 anos e nós os rejeitamos como nossos pais. Fritz Lang é como um avô para nós.
A idéia de filmar alguma coisa em ordem cronológica é a única maneira de se criar uma obra sem um roteiro fixo, e a maioria dos meus filmes são feitos desse jeito. A maioria das minhas historias vem de lugares e atores. Eu sinto que um filme é meu quando eu não tenho tanto controle no processo de filmagem. E é por isso que eu realmente gosto de documentários. Quando eu filmei Buena Vista Social Club eu percebi que não era um documentário, mas um verdadeiro conto de fadas acontecendo na minha frente. As barreiras entre documentário e a ficção são transparentes, e uma boa ficção tem a verdade de um documentário.
-Em seu filme “Alice na cidade” você escrevia a cena na noite anterior de filma-la, isso ainda é possível ?
Wim Wenders – Se você dizer que vai fazer um filme sem roteiro hoje em dia, todos irão rir de você. Por isso eu escrevo “falsos” roteiros para conseguir o dinheiro necessário para filmar as minhas historias.
-Muitos diretores alemães foram seduzidos por Hollywood.
Wim Wenders – Hollywood está lá para diretores europeus e sul-americanos conseguirem fazer filmes americanos. Eu quase fiz isso, mas eu percebi que sou alemão no coração e europeu na essência, e eu nunca iria filmar uma historia americana e eu nunca seria um diretor americano.
Até os filmes que eu fiz nos Estados Unidos como “Paris, Texas” são minhas próprias produções, não existe relação com nenhum estúdio americano. Ser um diretor em Hollywood é uma profissão totalmente diferente.
-Nos anos 80 você trabalhou com cinema digital. Quais são suas perspectivas ? É uma nova arte ?
Wim Wenders – Eu sinto que as historias contadas hoje em dia alcançam um nível social jamais imaginado no século passado. Existem historias que uma câmera pesada de película não consegue contar tão bem quanto uma pequena câmera digital. Essas câmeras conseguem captar o contemporâneo.
A escala de nossas expressões está sendo multiplicada pela tecnologia, e nessa escala você tem que achar um balanço para contar sua historia, dentro da possibilidade financeira e qualidade. A maioria das pessoas pensam que gravar digitalmente é trapacear e manipulação, mas eu acredito que é apenas uma ferramenta que permite um verdadeiro acesso a realidade.
-E a questão da recepção ? As salas de cinema estão condenadas pela internet ? Perdendo-se o ritual coletivo do cinema não amputa o cinema de uma de suas dimensões mais profundas ?
Wim Wenders – Eu ainda acho que podemos assistir filmes numa tela gigante, essa experiência não está totalmente perdida. Projeções digitais são boas porque são rápidas e mais flexíveis. Elas permitem que qualquer cinema no mundo sejam uma Cinematheque.
Eu gosto da possibilidade de ter os meus filmes favoritos em DVD, eles viram objetos como os livros, e eu amo livros. DVD e as fitas abriram um novo caminho para os filmes. Eu acredito que as salas de cinema não vão morrer, elas vão continuar a existir até mais e melhor do que agora.
Walter Salles – Não creio que o cinema esteja morrendo e a experiência coletiva não está ameaçada pelo consumo individual. Há uma troca de relações e experiências... É como o sexo, melhor não fazer sozinho.
-Como você vê o futuro do cinema europeu ?
Wim Wenders- O termo cinema europeu é muito novo, nós começamos a usar esse termo porque percebemos que precisaríamos disso como um “guarda-chuva” para nos proteger de influencias externas para fazer nossos filmes. Cinema nacional e regional necessita desse termo, e no futuro eles terão uma grande importância, maior do que tem agora e teve no passado. Eles te forçam a proteger sua cultura e sua língua.
-Qual a situação mais constrangedora que você já passou com alguma atriz ou ator ?
Wim Wenders – Seria melhor eu não revelar isso. A palavra atores no plural não existe, eu nunca encontrei dois atores com a mesma aproximação para atuar. Atores americanos te fazem acreditar que existe um método geral para atuações. Mas isso não existe.
Eu não preciso do ator mais brilhante do mundo para criar um personagem, eu preciso daquele que consiga se achar dentro de um personagem. Eu gosto de atores que possam mostrar quem eles realmente são, não aqueles que se escondem atrás de uma mascara.
Walter Salles - Isso me faz lembrar de dois diretores: Kieslowski, que jamais repetiria um take, e Stanley Kubrick que acreditava na teoria da exaustão, onde só se consegue a real interpretação após centenas de repetições. A cena do banheiro de “O Iluminado” levou 123 takes para ser finalizada.
-Qual a sua relação com a música no cinema ?
Wim Wenders- Quando eu fiz meu primeiro filme acadêmico, era um filme mudo porque eu não podia pagar por um gravador. Eu senti que eu fiz algo que eu queria ter feito, e eu toquei muitas musicas durante as projeções e todas elas traziam um novo significado para o filme. Musica e cinema tem uma incrível conexão muito próxima.
As vezes eu tenho muita inveja dos músicos, porque eles tem aquela coisa. Por exemplo, no meu ultimo filme eu percebi que eu tinha que lidar com a morte, e eu não conseguia achar um filme com a mesma temática que eu queria passar no meu filme. Então eu achei vários músicos de rock que tocavam de uma maneira linda e que relaciona com o que eu queria, e isso me fez continuar, porque se eles podem fazer, eu também posso.
Walter Salles – Na pintura chinesa do século XIX havia sempre uma área coberta com nuvens para convidar o espectador a completá-la com sua percepção própria. O cinema devia ser assim, devia ser o invisível que completa o visível, como são os filmes de Wim Wenders.

Partindo dessa excelente premissa, que traz consigo todo um pano de fundo complexo a ser explorado, Cantent constrói um protagonista de personalidade fraca, incapaz de encarar as responsabilidades e pressões de um emprego, de uma família e de relacionamentos humanos em geral. O que Vincent faz é fugir de tudo e de todos. Sua incapacidade de contar a verdade para o pai, para a esposa e filhos, faz com que ele trame esquemas para garantir o dinheiro necessário para manter a vida como antes. Entretanto, todos esses esquemas "brilhantes" têm prazo de validade; dentro de alguns meses o dinheiro terá que ser reposto, mas não há o menor gesto de Vincent na direção de conseguir um emprego para correr atrás desse prejuízo. As suas mentiras se sucedem, transformando-se numa bola de neve, e até ex-colegas, o pai e seu único amigo acabam sendo vítimas de seus golpes. Os conflitos éticos começam a perturbar sua mente, mas ele apenas segue em frente, de maneira cega e inconsequente.
Mesmo com uma contrução impecável até seu terço final, "A Agenda" falha ao terminar de forma politicamente correta, destoando de tudo que fora mostrado até ali. O final é pesado, bate forte e tem gosto de derrota. Baseado no livro "O adversário", escrito por Emmanuel Carrére a partir da história real de Jean-Claude Romand, o filme de Cantet usa a história original apenas como ponto de partida. Quase todo o roteiro é original, e o final é drasticamente diferente. No filme homônimo ao livro, realizado em 2003 por Nicole Garcia, a história original é seguida mais de perto, e o resultado é um filme espetacular, extremamente perturbador.
“Mas é filme nacional, hein !? Do Zé do Caixão!”, foi com essa frase num tom desencorajador que uma das atendentes de uma grande rede de cinema brasileira nos recebeu para assistir o tão aguardado filme de José Mojica Marin, “Encarnação do Demônio”, o filme que fecha a trilogia iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei sua Alma” e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” de 1967.
O filme traz um Zé do Caixão 40 anos mais velho do que vimos no começo da trilogia. Por essa razão também, muito do público que consiste no público de cinema de horror atual rejeita a obra da lenda cinematográfica brasileira. O público médio de Mojica consiste em jovens que viram o personagem em aparições em eventos e programas de televisão, sempre caracterizado e com seu discurso datado e que só é levado a sério por si mesmo. Grande parte desse público provavelmente nunca nem assistiu algum filme do cineasta.
Para trazer o personagem de volta ao interesse do público, Mojica contou com a colaboração de Dennison Ramalho (autor de “Amor Só de Mãe”, cultuado curta-metragem de horror), Paulo Sacramento (famoso montador de “Cidade de Deus”) e os conhecidos irmãos Gullane. O desafio de Mojica era fazer com que seu personagem fosse interessante dentro desse novo cenário de filmes de horror que vem arrastando jovens sedentos por violência para dentro do cinema, como “Jogos Mortais” e “O Albergue”.
A duvida era se Mojica iria ser condicionado a apenas a aparecer no filme ou se suas características próprias iriam continuar viva na sua obra, e é isso que vemos na tela de cinema ao assistir o filme. Apesar de competentes efeitos visuais, a linguagem do personagem ainda está lá, intacta e facilmente notada pelo publico, principal motivo para as pessoas continuarem qualificando o cineasta como trash, rótulo que o próprio descarta veemente.
O filme mostra Josefel Zanatas em busca da mulher superior que ira dar vida ao seu filho perfeito, após ficar preso durante 40 anos. Para isso conta com ajuda de Bruno e de outros quatro seguidores que o acompanhariam até a morte. Encontra no meio do caminho um padre (Milhem Cortaz) que busca vingança pela morte de seu pai e dois policiais irmãos, um deles vivido por Jece Valadão, não mais entre nós, que tentam impedir Josefel de conquistar seu objetivo. O roteiro apesar de falho em partes de sua narrativa, é ágil dentro de sua busca principal, e conta também com boas tiradas nos diálogos. Destaque também para a atuação de Adriano Stuart e das velhas ciganas cegas Helena Ignez e Débora Muniz.
Porem o principal trunfo do filme é a fotografia de José Roberto Eliezer, sempre marcante e condutora da narrativa de Mojica, brilhante nos momentos onde vemos os personagens mortos por Zé do Caixão nos dois primeiros filmes, em preto e branco. O filme ainda conta com a presença de Alexandre Herchcovitch (como um dos travestis e também vestindo o protagonista, as noivas e a “morte”), Zé Celso na absurda cena do purgatório e também a de um fã-sósia americano que veio para o Brasil para gravar a cena onde Zé do Caixão (ainda jovem) mata um padre com uma cruz e cega um dos policias, cena que foi censurada na época da ditadura.
As cenas de violência estão lá como todos imaginávamos, mas elas não são lançadas de um jeito fetichista que estamos acostumados em ver nas obras de Eli Roth (O Albergue) ou em “Jogos Mortais”, são cenas que compõe um pesadelo criado pelo próprio personagem e não pelo simples motivo voyeur criado pelos ângulos da câmera. Cenas onde mulheres saem de dentro de um porco, se afogam no sangue e também em baratas ajudam a tirar o fetichismo em cima da obra.
“Encarnação do Demônio” é sem duvidas um ponto positivo para o cinema nacional, é um filme que será facilmente lembrado no futuro por sua qualidade técnica e também por trazer de volta uma das lendas (mesmo que malvisto na maioria das vezes) do cinema brasileiro para as telas. Que essa não seja obra única na nossa escassa cinematografia.

Andy (Philip Seymour Hoffman), o irmão mais velho, é um executivo falido usuário drogas que convence Hank, seu irmão mais novo também falido à assaltar a joalheria dos próprios pais afim de se livrarem dos problemas financeiros e recomeçarem suas vidas. Andy tem uma bela mulher e é viciado em drogas, Hank é divorciado e pena para pagar a pensão da filha, que mora com a mãe. Livrando-se de todo e qualquer pudor, o plano é botado em prática, mas quando um ajudante contratado por Hank falha na hora do roubo e deixa a mãe dos dois à beira da morte, uma série de conseqüências e arrependimentos cerca a vida da família e das pessoas envolvidas.
Com dezenas de filmes na carreira, diversas indicações ao Oscar e incríveis oitenta e quatro anos de idade, Sidney Lumet é um dos grandes diretores americanos de todos os tempos. Com grandes fitas como "Um Dia de Cão" (1975) e "Sérpico" (1973), é especialista em dramas tensos e frios, sobretudo passados em tribunais.
Após decepcionar no errôneo "Sob Suspeita" (2006), Lumet arranca aplausos no instigante e viril "Antes que o diabo saiba que você está morto". Com atuações certeiras de todo o elenco, roteiro afinado e direção firme, tem pequenos tropeços quanto à edição fragmentada e certos vícios de um diretor um tanto quanto antiquado. No geral trata-se de um filmão. E o inusitado fica com a tão comentada similaridade de enredo com o recém lançado "O Sonho de Cassandra" (2007), de Woody Allen. A semelhança é tão gritante que parece que os dois gigantes participaram de uma gincana onde cada um faria seu filme a partir da mesma sinopse. E qual o melhor? O melhor a fazer é conferir os dois e tirar as próprias conclusões.
Respeitosamente, Graziano.

O polonês Kieslowski foi um dos mais aclamados diretores europeus da década de 90, após chamar a atenção do mundo com “Não amarás” e “Não matarás”, ambos lançados em 1998. A crítica o venerou após o seu decálogo (série de filmes feitos para a televisão tendo como temática os 10 mandamentos) e o consagrou após sua obra mais conhecida por aqui: A trilogia das cores. Iniciada em 1993, com “A liberdade é azul”, prosseguiu com “A igualdade é branca” e “A fraternidade é vermelha”, onde atingiu seu melhor e mais maduro resultado.
O diretor alemão Tom Tikwer é amplamente conhecido por seu longa “Corra, Lola, Corra”, que fez uma bem sucedida carreira internacional. Ao assistir seus filmes, logo percebe-se uma linguagem ágil, uma câmera virtuosa e ousadias estéticas e temáticas. Nada que lembre o cinema intimista de Kieslowski. Mas foi em suas mãos que o projeto do veterano polaco foi cair.
Embora o início de “Paraíso” possa remeter a um filme de ação ou a um drama sobre terrorismo, todo o resto do longa vai na contramão. O rumo escolhido é o intimismo, como sempre na obra do falecido polonês, num sombrio mergulho na alma arrependida e desesperançada de Philippa. Bela em sua simplicidade, a trama é muito bem conduzida pelo diretor alemão. Seu grande senso estético e sua câmera sempre criativa dão uma nova vida ao roteiro, trazendo a narrativa de Kieslowski para mais perto do cinema atual.

O filme é descrito como uma obra que naturalmente levaria o cinema brasileiro a um ponto na historia que nunca conseguiu alcançar, causando espanto também por ser a síntese de tudo que estava acontecendo no momento que foi filmado. Limite é o primeiro e único filme do então jovem cineasta brasileiro Mario Peixoto.
Muitos rumores cercam a vida de Mario, alguns dizem que nasceu em Bruxelas, na Bélgica e outros dizem que nasceu na Tijuca, no Rio de Janeiro, o que é certo porem é que ele sempre foi tido como um garoto introvertido e logo na infância foi estudar na Inglaterra, onde “assistiu” o cinema crescer com os vários movimentos que estavam acontecendo, como o Expressionismo Alemão, de onde sai um de seus filmes favoritos, Metrópolis de Fritz Lang. E é lá também que Mario começa a esboçar Limite em seu diário particular.
Filmado no Rio de Janeiro no ano de 1930 em pleno Modernismo brasileiro, e apresentado pela primeira vez em 17 de maio de1931, no Cinema Capitólio também no Rio, Limite é uma obra distinta na filmografia brasileira, Mario Peixoto chegou a oferecer o roteiro para Adhemar Gonzaga dirigir, mas o famoso produtor recusou dizendo que tal cenário só seria possível de ser criado se fosse feito pelo próprio autor, mas o incentivou a procurar Humberto Mauro, diretor de Ganga Bruta, que com o mesmo discurso de Adhemar recusa dirigir o filme, porém aconselha Mario a oferecer o roteiro a seu amigo fotografo Edgar Brazil, que acaba por transmitir tudo que o autor queria esteticamente, improvisando “gruas” e “travellings” até então não inexistentes aqui no Brasil. Aos 21 anos e com uma equipe pequena, Mario Peixoto começa a produção de Limite.
A obra não foi criada através de um conceito real, e sim com fragmentos dos questionamentos de Mario e também de imagens que ele encontrava em revistas ou filmes que assistia. Limite conta a historia de três personagens, duas mulheres e um homem, relembrando os fatos que os levaram a ficar preso no barco onde estão agora. O filme começa com uma imagem de uma moça com olhos fixos e punhos algemados, tal imagem é uma alusão a uma imagem que ele viu em uma revista francesa chamada Vu, na qual lia quando estava em Paris. Podemos relacionar essa cena que inicia e termina o filme com praticamente todo o seu enredo. É uma forma de desespero humano diante de suas limitações, e isso é ilustrado logo na cena seguinte, onde os três personagens principais estão dentro de um bote no meio do oceano, onde mais uma vez notamos suas impossibilidades diante de uma situação.
Com uma narrativa lenta, influenciada pelo Impressionismo, o roteiro de Limite se desenvolve junto com seus personagens. Suas trajetórias vão sendo mostradas uma por uma até chegar ao ápice onde encontramos os três personagens no barco na cena final.
Financiado com recursos próprios e com apoio da Cinédia, Limite não chegou nem a ser exibido comercialmente, tamanho foi o espanto que o publico teve diante de uma narrativa tão complexa, Mario Peixoto porém dizia, “o que eu realmente quis mostrar é que o tempo é uma coisa ilusória, ele não existe na verdade. E acho que consegui”.
Cotação: 5 estrelas

Ao contar essa singela história, Corneliu aproveita para criticar, sempre de maneira sutil e bem humorada, o comunismo que existia no país e a apatia da população. O diretor também não poupa a precariedade do país de sua ironia: a forma como ele retrata a televisão na cidade é hilária, e é o ponto alto do filme (na verdade, é quase metade dele). Aliás, pode-se apontar como defeito do filme o seu começo, muito lento, e que demora a situar o espectador. Aos poucos, percebemos do que o filme se trata, quem são aqueles personagens e o que fazem da vida. Tudo muito bem construído, dando a profundidade necessária para que a discussão no programa de televisão faça sentido.
Mais um bom filme romeno, que juntamente com “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, premiado com a Palma de ouro no último Festival de Cannes, fez com que os cinéfilos voltassem seus olhares para a Romênia. Juntos, os dois filmes mostram traços em comum, que parecem ser uma constante do cinema praticado pelos romenos. Com roteiros excelentes, atores que cumprem bem seu papel e diretores que sabem o que estão fazendo, os filmes do país deixam em segundo plano coisas como direção de arte, movimentos diferenciados de câmera ou ousadias estéticas. As cenas são simples, quase sempre planos longos e estáticos, privilegiando os personagens e suas ações. Aliás, é importante dizer que a preocupação estética não é das maiores, mas, ainda assim, os filmes têm qualidades nesse quesito: os enquadramentos são precisos, as cores bem utilizadas, sempre no mesmo tom frio que sempre caracterizou os países da extinta Cortina de Ferro. Pode-se dizer que lá se faz o “cinema de resultados”; o que importa é conseguir contar uma boa história. "Há vinte e quatro anos, um rabino se aproximou e cortou um pedaço do meu pênis. Há onze anos, quando entrei na adolescência, um rabino me deu os Livros Sagrados e me explicou meus direitos e privilégios durante o Bar-Mitzva. Algum tempo depois compreendi que ser orgulhoso das minhas origens não significava que eu deveria estar convencido de meu destino. Comecei então a procurar o meu Messias".
Partindo da alegação acima, um dos bons nomes saídos da nova safra do cinema argentino, Burman fez seu primeiro longa-metragem com esse sincero e urgente filme de teor autobiográfico. Através de inteligentes fábulas urbanas, protagonizadas por Ariel (Daniel Hendler), um jovem judeu com crise de identidade que busca independência, e Santamaría, um bancário recém desempregado e divorciado, desolado pela situação atual, é visto um panorama fiel de alguns dos contrastes sociais do país, que refletem diretamente na cultura e rotina da população. Defendendo uma estética realista, de poucos enfeites, o cineasta busca encontrar soluções para seus personagens problemáticos, e ao mesmo tempo com certo carinho em relação a eles. E dentre alguns momentos inspirados, têm-se a primeira parte da trilogia do “novos judeus numa Argentina em reconstrução”, se é que pode-se chama-la assim, que continuou com "O Abraço Partido" (2004, já criticado no blog) e "As leis da Família" (2006).
HISTÓRIAS DE COZINHA - ***
Partindo de uma premissa nostálgica de sátira aos costumes dos anos 50, o competente diretor Bent Hamer (do bacana “Factotum – Sem Destino” (2005)), conta uma história verdadeira um tanto dramática com uma pitaca irresistível de deboche e bom humor. A sutileza com que são apresentados os personagens do filme, é realçada pelo bom gosto artístico de arte e fotografia, completando um roteiro simplista, que por ser despretensioso em vários momentos, dá a fita no mínimo três estrelas. Um instituto de pesquisa sueco busca encontrar uma fórmula de que possam desenvolver a cozinha perfeita. Com isso, selecionam alguns homens que se estabeleceram em algumas cozinhas específicas no país vizinho, a Noruega, para serem observadores e descobrirem os segredos de alguns moradores. Folke, um dos técnicos, se estabelece na cozinha de Isak, um fazendeiro pouco disposto a ajudar nos estudos. E é nesse ambiente hostil entre os dois opostos, que cresce uma comovente relação peculiar de amizade. Bem que os primeiros vinte minutos, lentíssimos, poderiam ser enxugados, mas quando pega forma, o longa agrada a quem assistir com sua comédia leve sagaz carregada de boas críticas ao pós-guerra.
Respeitosamente,
Bruno Graziano.
Continuando sua saga obsessiva sobre relações amorosas de pessoas solitárias que mesmo a margem de alguma companhia sentimental, necessitam fervorosamente do amor, o único diretor chinês a ganhar o prêmio de direção em Cannes, e queridinho quase unânime cult da atualidade, faz aqui sua estréia em Hollywood, que para a discórdia de muitos, foi levada de letra pelo cineasta.
Kar-wai narra em episódios a história de uma jovem trabalhadora, Elizabeth (Norah Jones), que ao descobrir a traição do namorado, se apaixona pelo atendente de um pequeno café em Nova York, Jeremy (Jude Law). Mesmo assim a moça sai da cidade e vai para o Tennesse, trabalhar, e juntar dinheiro para comprar um carro. Lá, conhecerá figuras como o policial alcoólatra Arnie Copeland (David Strathairn) e a jogadora de poker turrona Leslie (Natali Portman), tudo enquanto Jeremy não desiste de procurar sua paixão de uma noite. Esta noite, que possui a melhor cena do filme – uma singular conversa por de trás de um vidro. Simples e bela.
Alguém deve ter chegado para Wong Kar-Wai e dito: “Você é um gênio”. E ele acreditou. E é esse vício que o diretor insiste em carregar, que impede alguns de seus filmes de se tornarem inesquecíveis. É o caso de “Um beijo Roubado”. Num início acachapante, com uma fotografia extremamente sub exposta, de cores berrantes, obturador remexido e operação tremula (belíssima!), o segmento inicial com os astros Jude law e Norah Jones, em sua estréia no cinema, dá a impressão de uma pérola ao nível de “Antes do Amanhecer” (1994) e “Betty Blue” (1986). E quando começa-se a ter a certeza disso, o chines emprega uma caretice dramática nada compatível com sua obra. Como se não bastasse o final levemente arrastado, ainda detém certos tons filosóficos forçados que fazem da fita uma irregularidade mescla de primor fílmico com pretensões demais. Respirar um pouco de indústria ocidental pode ajudar e muito o chines realizador de altos e baixos, como o inventivo e envolvente “Amores Expressos” (1994) e o superestimado e sonolento “Amor à Flor da Pele” (2000).
Respeitosamente,

Tudo mudou hoje mesmo; ainda de madrugada, uma nota oficial anunciava que o 61º Festival de Cannes teria "Ensaio sobre a cegueira", adaptado pelo diretor Fernando Meirelles a aprtir da obra de José Saramago, como filme de abertura. Uma grande honra para o brasileiro Fernando Meirelles, pois abrir o Festival é um dos maiores indicadores de prestígio para um cineasta.
A dupla de diretores belgas têm uma carreira longa, mas que ganhou sobrevida impressionante na última década. Desde "A promessa", em 1996, foi indicado ao César (considerado o Oscar francês) de melhor filme estrangeiro. O filme seguinte, Rosetta, levou a Palma de Ouro em Cannes. Em 2002, "O filho" concorreu ao cobiçado prêmio, mas não levou. Pouco temo depois, em 2005, a dupla reconquistaria Cannes com "A criança" (já criticado no blog), um filme simples e bonito sobre um jovem casal e seu filho.
O veterano Clint Eastwood é um forte candidato. Conta com a simpatia de Sean Penn, a quem já dirigiu em "Sobre Meninos e Lobos". Assim como o presidente do júri, Clint conseguiu fazer, de forma magistral, a transição de ator para diretor. Seus filmes também têm aspectos em comum com os de Seann Penn: são densos, envolvem famílias desestruturadas, desesperança e amargura.
O diretor é o representante francês. Nascido em Paris, pai de Louis Garrel ex da cantora Nico, o diretor milita há anos, com seus filmes independentes. Apesar de ser francês, Garrel é queridinho mesmo em Veneza, onde por muitas vezes concoreu a prêmios (tendo ganho alguns). No Brasil, ganhou mais reconhecimento por seu último filme, "Amantes Constantes", do que por toda carreira. O longa esteve presente em grande parte das listas de cinéfilos e críticos que elencavam os melhores de 2006. Além disso, ganhou o Leão de Prata em Veneza.
O diretor chinês é um dos mais comentados da atualidade, sendo premiado em festivais de todo o mundo, principalmente Veneza, onde já cansou de ser premiado. Esteve ano passado na mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde foi recebido como gênio e teve restrostectiva de sua curta carreira.
Um dos filmes mais aguardados do ano, sem dúvidas. Charlie Kaufman é um dos mais inventivos, excêntricos, competentes e bem sucedidos roteiristas do cinema na última década. Sim, parecem muitos adjetivos, mas Kaufman os merece.
A diretora argentina é um dos grande nomes do cinema "cult" na atualidade, mesmo com poucos filmes, e com grandes intervalos entre suas produções. Suas duas obras até o momento, "O pântano" e "A menina santa", que concorreu a Palma de Ouro no ano de seu lançamento (2004), ainda são comentadas e destrinchadas por especilistas. Dona de um estilo peculiar e intimista, deve agradar a Sean Penn. Ajuda também o apreço dos franceses pelo seu cinema; a argentina foi membro do Júri do próprio Festival de Cannes em 2006, e é um dos nomes mais aclamados pela tradicional publicação "Cahiérs du Cinema".
Uma das grande surpresas, por ainda nem ter sido concluído. Walter Salles e Daniela Thomas ainda correm para finalizar a montagem do filme, e podem acabar exibindo-o como "projeto em andamento" e em projeção digital, o que seria,de certa forma, um desprestígio ao Festival.
Steven Soderbergh é um diretor que flerta e se divide entre o cinema "de arte" e o mais puro entretenimento comercial. "Che" é um ousado épico sobre o lendário guerrilheiro Che Guevara. Ousado sim, por se tratar de um diretor americano.
Mais um grande cineasta da nova geração, Pablo Trapero é mais um argentino a concorrer a Palma de Ouro, o que deixa cada vez mais claro a força do cinema produzido pelos nossos vizinhos. Seu primeiro longa data de 1999, e já rodou festivais de todo o mundo, recebendo prêmios e elogios por onde passou.
Sim, o veterano cineasta alemão lança seu primeiro longa-metragem após muitos curtas. Pudera. Wenders já estava com fama de arroz de festa; qualquer coletânea de curtas por ocasião de festivais incluía algo seu (foram apenas quatro, na verdade, mas em um curto espaço de tempo).
Com um roteiro feito à quatro mãos, pelo diretor Marcos Jorge e pelo italiano Fabrizio Donvito, o longa constrói de maneira inteligente e eficiente sua trama, amparando-se no protagonista, o nordestino Raimundo Nonato. Recém chegado à cidade, desempregado e sem ter um teto, ele passa o dia em um bar, onde recebe uma proposta de Zulmiro, dono do lugar; ele pode dormir em um pequeno quarto nos fundos, desde que aceite trabalhar no local. Numa relação baseada na exploração, Nonato trabalha no bar como ajudante, e vai aprendendo também a cozinhar. Aos poucos, seu talento nato para o ofício começa a transparecer; suas coxinhas ficam famosas. Até o dia em que o dono de um restaurante italiano, surpreso com a qualidade da comida servida em um simples boteco, decide convidar Nonato para ser aprendiz na cozinha de seu restaurante.
A estrutura de “Estômago” é centrada em um protagonista passivo, e se quebra em três partes bem perceptíveis, relacionadas a cada um dos locais no qual Nonato cozinha: o bar, o restaurante italiano e a cadeia. As coisas acontecem com Nonato; ele é levado a esses lugares pelas circunstancias e situações. Quieto, irritadiço, submisso, Nonato não é um personagem naturalmente carismático. Para tentar ganhar o público, Marcos Jorge tenta, em alguns momentos, dar uma característica diferente a ele, através do humor e dos maneirismos nordestinos; mas tal tentativa soa forçada, por não combinar com a essência do personagem, e o resultado é apenas mais um arremedo de “O auto da compadecida”.
Para quem não conhece Kevin Smith, ele é o auto-intitulado cineasta nerd, responsável pela série de filmes sobre a cultura pop americana e mais especificamente sobre Nova Jersey, lugar onde nasceu. Smith sempre trabalha com os atores Ben Afflek e Matt Damon, e em seis dos seus sete filmes aparecem os personagens Jay (Jason Mewes) e Silent Boy (o próprio Kevin Smith). Seus temas abordados são sempre freqüentes, como Star Wars, Hóquei no Gelo, Hqs, relação de amizade, relação amorosa e conjugal, homossexualismo, sexualidade, drogas, preconceito, religião, e mais sexo, sempre com um humor fugaz, politicamente incorreto e de time desconcertante.
Seus diálogos certeiros, o tornam uma das cabeças mais pensantes da nova geração de cineastas americanos. Tem poucos, mas fieis admiradores, ganhou poucos prêmios até então, mas esbanja elogios e prestigio por onde passa. Lançou recentemente seu mais novo filme, ``Clerks 2``, continuação do sucesso ``Clerks``, onde foi ovacionado de pé durante 10 minutos numa sessão a meia noite no Festival de Cannes do ano passado. E Ai vai a relação da breve, porém notável carreira do diretor.
CLERKS 2 (Clerks 2) (EUA) (2006) (97 min.), de Kevin Smith - ****
A loja de conveniência Quick Stop sempre foi o centro do universo dos balconistas Dante Hicks (Brian O'Halloran) e Randal Graves (Jeff Anderson), ambos com 33 anos. Quando o lugar é destruído num incêndio, os dois têm que achar não só um novo lugar para matar o tempo como também novos empregos. Sem nenhuma ambição na vida, eles vão parar na lanchonete Mooby's. É lá que dão continuidade aos debates acalorados em que tentam decidir quem é melhor: George Lucas, Peter Jackson ou Jesus.
Quem é fã de Kevin Smith, esperava muito dessa continuação, tendo um enorme medo do que poderia vir. Quem não é tão fã assim, esperava um filme engraçado e nada mais. Independente da expectativa, ninguém se decepcionou. ``Clerks 2`` é a melhor idéia possível para continuar (e terminar pelo que pareceu) a saga dos dois balconistas mais famosos do cinema. Mantendo os dois atores principais, além é claro dos necessários Jay e Silent Boy, com a história de passando exatamente 12 anos depois e toda a narrativa fazendo um paralelo pitoresco com a carreira do próprio Smith. Isso, porque, segundo ele, o filme será o último projeto sobre Nova Jersey, com os personagens Jay e Silent Boy e de conteúdo jovem (ele tinha dito o mesmo ao fazer ``Menina dos Olhos``, antes de começar a realizar ``Clerks 2``) porque o mesmo estava numa passagem de identidade e maturidade, com mulher, filha e pouco mais de trinta anos nas costas.
Assim como o cineasta, os personagens Randal e Dante precisam achar um novo rumo urgente, antes que enlouqueçam e seja tarde demais. Disposto a impressionar, Kevin elabora uma brincadeira a tudo que jpa fez, se propondo a exagerar sem nenhum pudor. Com discussões que não devem em nada a primeira fita, e cenas que beiram a escatologia, chega até a fazer até uma inusitada seqüência de musical. Quem se identifica com o mundo proposto, reparece-se aqui até para emocionar-se.
MENINA DOS OLHOS (Jersey Girl) (EUA) (2004) (103 min.), de Kevin Smith - ***
Ollie Trinke (Ben Affleck) é um homem casado e bem-sucedido no emprego, que parece ter tudo o que sempre quis na vida. Porém sua vida de sonho desmorona após sua esposa, Gertrude (Jennifer Lopez), morrer, deixando uma filha, Gertie (Raquel Castro), para Ollie criar. Ollie decide então deixar o emprego e ir morar em Nova Jersey, na casa de seu pai (George Carlin), onde foi criado. Lá ele arruma um trabalho desinteressante e busca encontrar ânimo para seguir em frente, enquanto que Gertie acha que Nova Jersey é um verdadeiro paraíso.
O longa mais execrado de Kevin Smith, que seria o ponto inicial de uma faze mais madura, foi também um fracasso de bilheteria. ``Menina dos Olhos`` é um bom filme, encantador, e se tratando de uma comédia romântica convencional, é indiscutivelmente acima da media. Smith, que é mais roteirista do que diretor (segundo ele próprio), pegou um gênero surrado e bastante popular, para tantar tirar leite de pedra. De certa forma conseguiu, dando um pouco mais de anarquismo cinematográfico a trama convencional.
A história lida apenas como sinopse, dá a impressão de mais um mela cueca mamão com açúcar sentimentalóide, mas Smith emprega seu estilo, transformando a produção numa deliciosa e cativante historia familiar. O roteiro, que é baseado na relação do diretor com a própria filha, ganha autenticidade, e mesmo suas discussões por vezes não tão inspiradas, são condizentes com o tema e proporcionam cenas ao mesmo tempo hilárias e intimistas, como por exemplo, a conversa sobre relação pai e filhos de Ollie com Will Smith e a discussão sobre sexo de Ollie com Maya (Liv Tyler). Outro ponto relevante da fita é a escolha da protagonista Raquel Castro, que interpreta Gertie. A menina é tão carismática (seguramente dirigida por Smith), que deixa qualquer marmanjo com vontade der ter uma filha como ela.
O IMPÉRIO (DO BESTEIROL) CONTRA-ATACA (Jay and Silent Bob Strike Back) (EUA) (2001) (120 min.), de Kevin Smith - ***
Quando Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (Kevin Smith) descobrem que os personagens de histórias em quadrinhos baseados neles, Bluntman e Chronic, irão ser adaptados para o cinema eles vibram de alegria. Mas logo esta alegria vira raiva quando ambos descobrem que não receberão nada por terem inspirado os personagens. Visto isso, resolvem partir em uma viagem de Nova Jersey até Hollywood a fim de sabotar as filmagens, que estão prestes a serem iniciadas.
Homenagem póstuma a Jay e Silent Boy, seus famosos coadjuvantes, é um trunfo para alguém que era fã e virou realizador, e está aí seu maior pecado. Ao homenagear os dois escatológicos personagens, Smith arranca até que boas risadas dos mais dispostos. Há cenas hilariantes e sagazes, sim, mas a maioria da trama é nada mais, nada menos, que um filme para maconheiros. Quem gostar de comédia barata, com participações pra lá de especiais, vai deleitar-se
Dentre elas, estão Wes Craven, Gus Van Sant, Chris Rock, Alanis Morissette, além é claro, de seu elenco de praxe. O único problema, é que ao passar para o humor físico, que é bem exercido, mas não chega perto do dialogado, Smith dá pinta de perder a linha, mas salva pelo todo. Seu filme mais fraco.
DOGMA (Dogma) (EUA) (1999) (130 min.), de Kevin Smith - ****
O mundo corre o risco de desaparecer. Tudo por causa de Bartleby (Ben Affleck) e Loki (Matt Damon), dois anjos expulsos do céu e que querem retornar a qualquer custo. Para tanto, eles têm um plano: cruzar o portal de uma igreja em Nova Jersey para, absolvidos de seus pecados, poderem retornar ao paraíso. Só que tal ato provaria que Deus é falível e, como conseqüência, a realidade se desmancharia. Para evitar que a tragédia ocorra é montada uma equipe de combate aos anjos, formada pela última descendente de Jesus Cristo (Linda Fiorentino), um 13º apóstolo negro (Chris Rock), dois profetas (Jason Mewes e Kevin Smith) e uma Musa Inspiradora (Salma Hayek).
Contra tudo e contra todos, Kevin Smith deixa sua marca uma vez por todas na história do cinema. ``Dogma`` é transgressor, desrespeitoso, sem concessões, inventivo, por vezes infantil, por vezes excêntrico, altamente crítico, ferozmente polemico e perfeitamente pensado. Smith escreveu o roteiro antes mesmo de filmar seu primeiro longa ``O Balconista``, mas guardou a sete chaves e esperou filma-lo até que tivesse condições para realiza-lo do jeito que queria. E realizou.
Com um orçamento inacreditável para um filme de tal estirpe (satirizando fortemente os dogmas do catolicismo), que só prova a independência e liberdade criativa que já havia adquirido. ``Dogma`` é sim, discutível em vários pontos, não podendo ser unanimidade, e está aí sua maior virtude. É cinema perigo, cinema incomodativo, cinema inescrupuloso. Da que há 50 anos, talvez ninguém lembre de ``Dogma``. Mas que ele incomodou, ele incomodou. (aqui no Brasil, por exemplo, o filme teve exibição proibida nas principais redes de cinema do país, tendo apenas os principais cinemas de arte, restritos a algumas grandes cidades, exibindo o filme)
PROCURA-SE AMY (Chasing Amy) (EUA) (1997) (113 min.), de Kevin Smith - ****
Holden (Ben Afflek) e seu amigo Banky (Jason Lee) ganham a vida fazendo uma tirinha de sucesso em Nova Jersey. Um cotidiano tranqüilo, até que Holden cai de quatro ao conhecer a roteirista Alyssa (Joel Lauren Adams). Não mede esforços para conquistá-la, mas surpreende-se ao descobrir que ela tem a mesma preferência sexual que ele.
Eis aqui o filme favorito de grande parte dos fãs do cineasta, o que é fácil de se entender. Após dois filmes substancialmente cômicos, Smith parte para essa comédia dramática com uma competência e sabedoria do assunto, dignas de nota. O filme pertence ao seleto grupo de títulos que tratam o amor seriamente, ou seja, sem clichês, estereótipos e pieguices. Smith escreveu a história baseada num relacionamento que teve anteriormente, explicando assim, a sinceridade e plausibilidade que a fita possui.
Não que ele saiba mais sobre o amor que outros criadores, mas por eliminar toda e qualquer censura sentimental, expondo assim seus medos, vontades latentes e principalmente erros visíveis, conseguiu fazer um dos melhores filmes sobre relacionamentos amorosos da conjuntura atual. Que seu talento extraordinário para escrever roteiros existe, isto é sabido, e aqui ele deixa uma direção mais apurada de lado, para mostrar o simples, com entrelinhas complexas. O que importa aqui não são os planos, e sim os personagens.
Quase inteiro falado (ou melhor, discutido), ele dá muito mais valor em captar as exposições emocionais, repetindo constantemente uma câmera na mão, levemente tremula, sem um enquadramento perfeito e principalmente sem cortes, conseguindo assim um resultado desconcertante. Há algumas cenas antológicas, onde é impossível ficar indiferente, como na conversa (aliás, discussão) de Holden e Alyssa no meio da pista, ou a outra discussão, agora com Banky presente, no banco na mesma balada, ou a briga de Holden e Alyssa na chuva e também, imprescindível, a briga de Holden e Banky, que é de um resultado intimo fenomenal (Jason Lee até hoje só mostrou tudo que sabe sendo dirigido por Smith, aqui nesta fita, ele chega ao ápice da carreira).
Resumindo, os atores brilham em cena, o roteiro é impecável e a direção, por ter sido deixada em segundo plano, faz parte positivamente da intenção final. Ganhou o premio de melhor roteiro no Independent Spirit Awars. (atenção à cena da lanchonete, onde aparece Jay e Silent Boy, ela explica tudo que foi escrito aqui)
BARRADOS NO SHOPPING (Mallrats) (EUA) (1995) (94 min.), de Kevin Smith - ***
Dois estudantes muito amigos ficam chateados quando suas respectivas namoradas rompem com eles no mesmo dia. Assim, os dois vão ao shopping local para arejar a cabeça e, se possível, encontrar um meio de recuperarem suas namoradas. Mas esta simples ida ao shopping acaba se transformando em uma sucessão de confusões.
Na época de seu lançamento, ``Barrados no Shopping`` foi um sucesso de público, consolidando parte dos admiradores de Kevin Smith, mas foi razoável com a critica, que sentenciou o filme como fraco e colocou o talento promissor de Smith em duvida. A grande verdade é que o filme é uma comédia que cumpre o que se propõe a fazer; uma homenagem aos filmes dos anos 80, sobretudo o cineasta John Hughes, ser situada no universo que Smith viveu (shopping, HQ e tudo que compõe um típico jovem americano de classe media, além de não deixar de lado os diálogos hilários e intimistas do diretor).
Vale como diversão e também como forma de entender a filmografia do cineasta (aliás, é bom ver os sete filmes em seqüências, pois os personagens vão e voltam nas películas, e como um ator interpreta vários personagens, que é o caso de Afflek, pode confundir os menos entendidos no assunto). Jay e Silent Boy estão como sempre presentes e propiciam os momentos mais hilários da fita, mas a melhor cena, sem duvida, é quando Stan Lee, criador de HQ famosas com o Homen-Aranha, Hulk e X-Men, faz uma participação especial.
O BALCONISTA (Clerks) (EUA) (1994) (99 min.), de Kevin Smith - *****
Há dois tipos de balconista: aquele que sempre te recebe com um sorriso e aquele que se pudesse te mataria. Dante é do primeiro tipo: insulta os fregueses quando pode – e quando não pode! Qual dos dois tem razão? Seja bem-vindo ao louco mundo dos balconistas: um mundo repleto de excentricidade, personagens loucos, clientes chatos, atendentes pra lá de estranhos e muito, muito bom humor. Acompanhe um dia na vida dos balconistas Dante Hicks (Brian O'Halloran), que trabalha numa loja de conveniências e Randal Graves (Jeff Anderson), que trabalha numa locadora, dia este em que nada parece dar certo.
``O Balconista`` é a grande obra-prima de Kevin Smith. 1 - porque é seu primeiro filme e 2 - porque até hoje é seu melhor. O filme é também uma das melhores comédias de todos os tempos, sendo constantemente lembrada em listas do tipo, tornando-na assim, um dos sucessos cult mais bem-sucedidos da história do cinema. Seus dados são impressionantes e falam por si só; Kevin Smith tinha apenas 24 anos quando dirigiu a fita, que custou inacreditáveis 25 mil dólares, dinheiro que Smith arrecadou trabalhando durante anos numa loja de conveniência e numa locadora (as mostradas no filme) e vendendo sua coleção de HQ, que ele comprou de volta após o relativo sucesso de bilheteria. Smith decidiu filmar em preto e branco, não por opção estética como muitos falam, mas para deixar a fotografia menos precária, afinal, a câmera era bastante limitada, todos os atores do filme eram amigos e conhecidos do cineasta e o longa fez surpreendente sucesso por onde passou, ganhando importantes prêmios no Festival de Sundance e Cannes.
Ao finalizar a primeira copia de ``O Balconista``, Smith achou que aquilo nunca iria estrear numa sala de cinema e que estava perdido, sem dinheiro, sem rumo e principalmente, sem sua coleção de HQ. Mas ao jogar o filme nos vários festivais do globo, ganhou os principais e foi aplaudido de pé por onde passou. A intimidade com que escreveu o roteiro, seus personagens, situações e diálogos, é até hoje insuperável e inicia aqui a saga proferida nos filmes posteriores. Randal e Dante são dois jovens sem rumo, que trabalham num serviço medíocre e tem de lidar com os diversos dilemas da passagem pra vida adulta. Jay e Silent Boy são dois vagabundos sem solução, que traficam drogas e só pensam em sexo (sempre que aparecem, roubam a cena e graças a esse sucesso coadjuvante, os dois ganharam cada vez mais espaço na filmografia do diretor).
Além deles, existem os diversos clientes e seus estereótipos, que passam diariamente pela vida de quem trabalha atrás do balcão. Impressionante como em poucos personagens e uma hora e quarenta minutos de duração, Kevin Smith conseguiu mostrar mais sobre uma geração que uma centena de filmes produzidos até hoje. A cada ano que passa, a fita melhora, se tornando obrigatório pra qualquer um que estude, ou apenas goste de cinema.
Respeitosamente,
Bruno Graziano.
Qsdfz1da61 feeTa5e 2o33aeQu loTh3boa w3oloTh3b trAcq chee9Phi Tie7queo othe4Ka0 Ooku4aiS yahX5kee aid6XeuS ahch0Bah eeJie9ax
ads case in vendita - employment
|